Bate-papo: Sobre o menino que espiava para dentro

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O menino que espiava para dentro x Os adultos que apenas espiavam

“O oculto ganha força na ignorância”
Ilan Brenman

Quantos medos carregamos dentro de nós por não saber a origem de cada um deles? Quantas vezes você se fecha em seu mundo e se permite olhar apenas para o que lhe é mais confiável? Ultimamente você tem procurado vencer os algoritmos das redes sociais que lhe fazem pisar em caminhos seguros e apenas o conduzem para o que você quer ler, ver e ouvir?
De acordo com Judy Goldman, em seu texto A tênue linha entre selecionar e censurar, “o problema da intolerância não se resolve proibindo um livro com estereótipos: é melhor lê-lo para detectá-los e falar sobre eles abertamente. Ao proibir, ocultar ou limitar a leitura de uma obra se age contra o livre fluxo de ideias” (tradução minha do original em espanhol), ou seja, será que deveríamos nos perguntar até quando vamos achar que nossas verdades são absolutas?
Não é de hoje que adultos se sentem no direito de considerar as crianças menos inteligentes e a literatura que a eles é destinada como uma categoria menor e enfraquecida de ideias. O que deveria chocar os adultos não são os temas postos nas narrativas para crianças, o que deveria chocá-los é que em pleno século 21, onde ao alcance de nossas mãos, por um desbloquear de tela, temos qualquer tipo de informação que quisermos, essa mesma informação recebida, não é filtrada e transformada em Conhecimento!
É preciso falar de interpretação de texto, é preciso falar de contexto, é preciso falar de politicamente correto, mas acima de tudo é preciso falar de mediação de leitura. Será que os irresponsáveis são aqueles autores que tiram as crianças de seus mundinhos “perfeitos” e lhes mostram o lado “feio” da humanidade, que lhes apresentam bruxas, lobos ou maçãs envenenadas. Ou irresponsáveis são aqueles que mantem as crianças em bolhas sociais para que estas não vejam a realidade que as cerca, que não se permitem ouvi-las, debater com elas, tirar dúvidas e que lhes negam a chance de compartir?
Somos adultos e temos medo! Medo de falhar, medo de não saber o que responder, medo de ter trabalho, medo de sair de nossas zonas de conforto. Por medo nos acomodamos, por medo não lemos, por medo censuramos o direito de nossas crianças lerem, por medo viralizamos opinião alheia, por medo nos abstemos. Damos celulares para que não nos façam tantas perguntas, permitimos livre acesso à internet para que ocupem seu tempo e, assim, não ocupem o nosso. No entanto, pouco lhes damos a oportunidade de falar, falhamos ao mediar sua construção de aprendizagens das mais simples as mais complexas, falhamos ao mediar sua construção mais importante de leitura, a de mundo!
Quem convive com crianças sabe que não há limites para sua fantasia, porém nessa convivência nos esquecemos de que também já fomos crianças, que choramos com medo da Cuca, que desejamos a morte do lobo pelas mãos do caçador e que conhecemos a potência de uma maçã envenenada, mas nem por isso, matamos lobos, envenenamos o colega de trabalho que foi promovido em nosso lugar ou que não vamos sozinhos ao banheiro com medo de se deparar com a Loira do banheiro saindo da privada. A fabulação é o que nos torna humanos, imaginar histórias é o que nos diferencia de outras espécies de animais.
Dessa forma, reflitamos: se pode manter o pequeno e jovem leitor na ignorância de temas da vida real ou convém abrir lhes os olhos ante esses temas, já que a leitura pode encontrar possíveis soluções a problemas e situações assim?
Heinrich Heine já dizia “onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”, nisso em nosso país já saíram chamuscadas Emílias, bruxas, cantigas que atiravam paus em gatos, fábulas, contos de fada, histórias das mil e uma noites, Lobato, J.K. Rowling e, agora, Ana Maria Machado, com seu menino que espiava para dentro, que espiando só queria a chance de viver feliz por cem anos em seu mundo azul da imaginação, de ser um eterno Peter Pan. (E que fique claro que esse não é o melhor livro da autora)
A cegueira atual, já premeditada pelo mestre Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira, não nos permite ver além do que nos cerca, pena que nos fechamos a círculos tão estreitos que tão pouco pode ser visto. Cito um aforismo muito conhecido de Freud e trazido por Brenman em seu estudo sobre o politicamente correto “às vezes um charuto é apenas um charuto. Às vezes um livro infantil é apenas para crianças.” Cabe aos adultos ler junto, debater, questionar e, acima de tudo, respeitar aquele que escreve e aquele a que se destina. Pois, como sempre digo, em 100% dos questionamentos levantados sobre os livros publicados para crianças e jovens, em 99% dos casos os problemas estão na cabeça dos adultos que os localizaram.
Que nós educadores e pais, possamos reverter estas estatísticas, proporcionando as nossas crianças espaços efetivos de conversa, onde elas possam falar sem medo, nossos medos, sobre tudo, debater sobre temas considerados difíceis e possam ver em nós, os mais experientes, uma parceria efetiva na construção de valores sólidos, convertendo-se desse modo em futuros adultos pensantes, criativos, imaginativos e críticos, que possam proporcionar a seus filhos espaços de debate como os que tiveram em sua formação. Do contrário eles podem morrer engasgados, não com maçãs, mas sim com palavras que não tiveram a oportunidade de falar.

(Esse foi um desabafo de uma educadora apaixonada por livros infantis, que ao se deparar com livros considerados perigosos lê as crianças no anseio de aprender mais com elas do que lhes ensinar alguma coisa).

Amanda Alves do Amaral
Mestre em Livro Infantil e Juvenil pela Universidade Autônoma de Barcelona

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